• Hericka Zogbi Jorge

Dicas para o não: verão, férias, convivência familiar - Psicologia da Criança parte II

Atualizado: Mar 24

Verão, férias e convivência intensa em família. Época em que os pais precisam treinar a sua firmeza na questão do limite e do uso do não em suas crias: é picolé antes do almoço, não quero ir embora da praia, não quero dormir no horário de sempre, pra que banho se eu já tomei banho de piscina e por aí vai 🙄.



Todos sabemos que pode parecer mais fácil, então, ceder. Ceder porque, enfim, é férias, porque passamos pouco tempo com eles não queremos briga. Mas, só parece. A médio e longo prazo o resultado é muito danoso. Especialmente porque as mensagens dadas pelo ambiente devem ser estáveis, ou seja, mais ou menos sempre as mesmas. A oscilação das mensagens gera confusão e instabilidade na criança (o que muitas vezes depois resulta no comportamento de irritação e birra que não sabemos de onde saiu; saiu da confusão dentro do mundinho interno da criança, causada pelas mensagens ambivalentes dos adultos). Obviamente eu sei que isso não ocorre por mal! Aliás, quero muito tirar essa ideia erradíssima de que os psicólogos (pelo menos aqueles bem formados) culpam os pais. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade sobre o desenvolvimento daquele ser humaninho 😉.



E, para quem costuma ter a mensagem de permissividade, fica a dica de tentar mudar um pouquinho a postura... é para o bem deles, e para o bem a sociedade em que eles vão fazer parte (e construir) um dia. O não é organizador da personalidade, integra os impulsos da criança que são, até uma certa idade, isentos de racionalidade. Os adultos precisam, até certo tempo, ajudar a criança a aprender a pensar e medir consequências. Para quem tem a mensagem do rigor excessivo, a dica de equilíbrio é a mesma. A rigorosidade em excesso gera afastamento da criança, empobrecimento das relações de confiança nela mesma e nos seus cuidadores.


Abaixo eu vou colocar algumas das dicas que eu enviei pra coluna da @realcris.silva lá por novembro do ano passado. São dicas bem baseadas nas teorias psicológicas clássicas, numa tentativa de ajudar um pouco os adultos que estão passando por isso.


Seguem ⬇


  • Freud denominou o bebê como sendo “sua majestade o bebê”, pois assim deveria ser quando do nascimento de uma criança. Ela deveria - e deve - ser o centro dos cuidados e atenções por um certo período de tempo, que em geral vai até os 2 a 3 anos de idade (podem achar demais, mas é isso mesmo, até pela questão do seu desenvolvimento neurológico).

  • A criança pequena é sim tomada pelas suas vontades, pelo que querem, pois não têm a capacidade de compreensão de um adulto. Cabe aos adultos ajudar a criança a medir as suas necessidades - para isto, os adultos têm de ter isto muito claro também dentro de si, ou seja, tem de ter medidas também na sua vida.

  • O bebê nasce em estado de dependência absoluta (segundo Winnicott) e precisa receber do ambiente (mãe, pai, cuidadores, substitutos) todo o suporte - continência - para que possa se desenvolver em busca de autonomia e independência, e portanto, de saúde mental.

  • O NÃO, tão comumente falado, é este CONTINENTE que a teoria psicológica sugere: ao dizer um NÃO, o adulto indica para a criança quais são os limites do ambiente, até onde ela pode ir. Isso gera segurança emocional para ela e confiança no adulto, e depois, nas demais relações.

  • Saber até onde pode ir gera a sensação de segurança e confiança neste ambiente e nestas pessoas. Ao mesmo tempo há liberdade dentro de um certo espaço e há os limites deste espaço de possibilidades.

  • O NÃO, o LIMITE, são tecnicamente chamados de FRUSTRAÇÕES que a criança deve ter para que possa conhecer, então, os limites das suas necessidades e das outras pessoas, gerando assim, a capacidade da criança de sair do seu lugar de majestade e colocar-se no lugar das outras pessoas. Isto é o que se chama de fato, de consideração, que só ocorre quando saímos de nós mesmos, do “nosso umbigo”. Novamente em termos técnicos esse movimento de consideração indica que a criança está saindo da fase - normal - do narcisismo infantil, olhando para o outro como tal e não como parte de si ou alguém ao seu serviço.

  • A saída da fase narcisista acontece quando o ambiente se mostra presente através do equilíbrio entre aquela frustração e as gratificações. Uma criança não vive saudável apenas com gratificações.

  • O NÃO é organizador do espaço emocional da criança, por mais que pareça o contrário, pois é no momento do não que surge a “birra”, a teimosia, a tentativa de ignorar o não e permanecer fazendo as suas vontades, permanecer sendo “majestade” - permanecer na fase narcisista - e permanecer sendo bebê.

  • Crescer significa frustrar-se e ir, paulatinamente, internalizando que o mundo não é como queremos, que os nossos desejos não vencerão sempre.

  • Importante salientar o papel da conversa e das “negociações”: é sim importante dar voz à criança. A necessidade da criança em contrariar o adulto, dizer ela mesma o não para comida ou banho ou a roupa escolhida, diz respeito a sua necessidade de diferenciação deste adulto, da criança poder reconhecer que também tem vontades que podem ser válidas e que não só de frustração de faz seu desenvolvimento.

  • Porém, há questões inegociavéis, como tomar banho, escovar dentes, alimentar-se de forma saudável, respeitar as outras pessoas, ir à escola. Nestes momentos surgem os “testes” de paciência e novamente a necessidade de CONTINÊNCIA que os adultos precisam ter em relação à criança para que ela possa confiar no seu cuidador.

  • Um cuidador que dá muitas mensagens diferentes, ora pode ora não pode a mesma coisa, ou pode tudo, faz com que a criança se sinta responsável por ela mesma antes que esteja pronta para isso, o que resulta na maioria das vezes, nos quadros de ansiedade, agressividade, tristeza e irritação por parte da criança.

  • Por mais que uma criança chore porque recebeu um não de qualidade, de fundamento, este choro será mais organizador do que o choro por ter conseguido tudo o que quer. Certamente um não afetivo vai ser o melhor para ela.



O que pode ser negociável e o que é de fato uma negociação autêntica:

  1. o escolher entre duas ou três peças de roupas, sapatos, não entre todo o guarda- roupas;

  2. o escolher qual alimento saudável vai ser consumido, e não se vai ou não ser consumido;

  3. o escolher se fica brincando até a hora do banho ou se prefere ver tv até a hora do banho, por exemplo - e cumprir isto;

  4. a negociação é dentro de limites pré-estabelecidos pelo adulto, jamais com todas as possibilidades na mesa.

Os cuidadores precisam observar a diferença entre uma negociação autêntica e uma chantagem, que altamente prejudicial para a saúde mental mas que ocorre muito mais do que desejaríamos. O que seria uma chantagem:

  1. se tu não tomares banho a mamãe vai chorar;

  2. se tu continuares chorando vou te deixar aqui;

  3. se fizeres ou deixares de fazer tal coisa a mamãe não vai mais gostar de ti.


Mentiras também não são nada positivas, mas às vezes são as armas que os adultos, sem muita ideia do seu dano, encontram:

  • se tu não comeres a velha do saco (bem da minha época, eheh), o ladrão, seja quem for vai te pegar, e assim por diante.

Esses exemplos mostram as dificuldades dos pais/ambiente e mesmo o seu temor de dizer um não e arcar com o que virá: o choro, a teimosia, o “eu te odeio”, “tu é a pior mãe do mundo”. A falta do não muitas está mais ligada a incapacidade dos pais de lidarem com essa avalanche de sentimentos da criança do que a outras coisas. É importante pensar nisso, sem preconceito.


Toda essa questão, como a maioria das questões da infância, é relacional, de pelo menos duas partes, adulto/ambiente e criança. Esperamos que as crianças possam ser crianças (com limites para serem adultos melhores) e que os adultos possam ser adultos e desempenhar seu papel de formadores de novas pessoas!


É isso pessoal! Podemos conversar sobre isso!

Até!



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