• Hericka Zogbi Jorge

Divórcio, mulheres X homens: século XXI e Melanie Klein

Atualizado: Mar 24

🧐




Há muito eu queria falar sobre este tema, mas estava encontrando meu tempo.


Dados antes de afetos


Originalmente os casamentos ocorriam, resumidamente, a fim de manter bens e laços sociais. Foi a partir de 1670 que a indissolubilidade do casamento passou a ser contestada. Uma fonte simples para essa consulta de informação pode ser encontrada no site https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/sociologia/historia-casamento.htm.


De acordo com dados do IBGE ( https://www.ibge.gov.br/busca.html?searchword=divorcio ) o número de casamentos em 2016 e 2017 caiu 2,3% e neste mesmo período o número de divórcios aumentou 8,3%. São 3 casamentos para um divórcio. O casamento ainda está ganhando.


Em tese, o casamento evoluiu de acordos econômicos e políticos para o amor, a busca de vínculos e laços afetivos. Iara Camaratta Anton no livro "A escolha do cônjuge" (http://iaracamaratta.com.br/?p=758) diz que para a possível formação de duplas ou grupos é preciso haver algum tipo de ressonância, positiva ou negativa. No capítulo sobre o casamento podemos ler que numa relação contínua é importante que:

  • um se importe com o outro

  • ambos se desejem e se acolham

  • ambos se respeitem e se nutram

  • as pessoas consigam manter a sua individualidade de modo a fortalecer o "nós"

  • haja uma relativa harmonia de valores e objetivos (opostos se atraem mas, às vezes, se ressentem da diferença, eventualmente entendida como desamor)



Para saber por que termina, vale saber por que começa


Chegamos então a pergunta, por que os casamentos acabam? Bom, talvez porque não haja tudo isso, ou a maioria dos itens. Mas a pergunta inicial que deve ser feita é: por que casamos? (sem julgamentos!)

  1. Pela busca do príncipe encantado? (sobre isto, tem um livro maravilhoso, antiquíssimo, chamado "O complexo de Cinderela" https://www.saraiva.com.br/complexo-de-cinderela-3-ed-2012-4847698/p mas também tem em sebos reais e virtuais)

  2. Para cumprir expectativas sociais? (é o que deve ser feito, ficar pra tia, as amigas casaram, e assim por diante)

  3. Para evitar a solidão?

  4. Para ter filhos? (como diz uma amiga minha, ter filhos não importa contra quem, o interessa é tê-los)

  5. Pelas promessas de felicidade eterna?

  6. Todas as alternativas acima? 🤨


Parece horrível falar assim!Mas pelo menos alguma dessas alternativas já passou pelas cabeças leitoras aí.

Não desanima, não, pessoal! Não mesmo! Casar é tão bom que já estou no segundo! 😅 💑👰🤵

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Por que eu quis falar de divórcio e a guerra dos gêneros



Estamos no século XXI, há 20 anos. Estamos em 2020, quando os filmes diziam que iríamos estar voando por aí. Não só não estamos voando como às vezes estamos enterrados ou andando para trás. E, pasmem, mulheres ainda não podem querer se separar. Não vou aqui teorizar sobre feminismo, questões sociológicas e profundamente históricas porque, de fato, não as domino (e deixo para quem de direito possa falar).


Mas posso falar na pele, mulheres não podem querer. Hoje as mulheres têm independência afetiva e financeira (se não têm, podem ter, há liberdade e certo espaço para isso). Alguns estudos apontam que as mulheres tendem a pedir divórcios por não estarem felizes e ainda assim, se sentem inseguras com a decisão (talvez em função dos motivos para casar citados acima).


Nestes dias de 2020, no século XXI, ser uma mulher divorciada (mesmo casada novamente) parece disseminar algo contagioso (não é segredo pra ninguém que atualmente - e talvez desde sempre - mulheres têm votado fortemente contra mulheres, Klein explica 🙄) como se "uma divorciada" fosse dar a ideia para outras mulheres ou se tornar uma caçadora de homens/maridos alheios 😴


Demorei muito tempo para dizer isso, também, por medo de ser julgada. Mas depois de alguns anos e algumas obervações, percebo que neste ponto, ainda estamos na década de 60 (pra não ir mais longe) quando "o divórcio não existia, as mulheres separadas eram estigmatizadas e o grande pavor de qualquer mulher era cair na boca do povo" ( Maria Lygia Quartim de Moraes http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332001000100001)


Eu e meu sem-número de amigas separadas ou divorciadas que não sofrem o temor do contágio, vemos todas o afastamento inevitável dos antigos amigos casados, a sobrecarga, os julgamentos da família e de fora dela, a visão distorcida e ainda presente de que mulheres em situação de separação/divórcio são vítimas. Um outro estudo que vou citar aqui fez grupos de pais e mães separados sobre o que lhes angustiava e todos os pontos acima apareceram.


Sabe por que não somos, as mulheres Cinderelas, vítimas? Porque 50,3% dos pedidos de divórcio/separação eram das mulheres, numa pesquisa de Zordan, Wagner (minha professora no mestrado e doutorado na PUCRS) e Mosmann. As conclusões delas foram as seguintes:

Quanto mais independente economicamente é a mulher, mais exigente ela se torna com o seu parceiro amoroso, e o casamento não ocupa mais um lugar sagrado, quando "acaba o amor"..
Desse modo, tendem a não submeterem-se a permanecer em uma união pouco satisfatória, assim como também não hesitam em levar ao judiciário seus impasses com o ex-cônjuge, especialmente quando existem filhos envolvidos.

Melanie Klein mudou o mundo psicanalítico de "falocêntrico" para "seiocêntrico"(resumidíssimo em Klipan e Abrão e aprofundado em toda a sua obra) isso lá em meados de 1920 quando as mulheres começavam a lutar por seus direitos em todo o mundo. Ela enfrentou o mundo psicanalítico e dominado por homens com a mudança profunda de perspectiva de uma teoria voltada para a centralidade do falo como representante de poder para a centralidade do seio e da capacidade feminina de gestar e alimentar.


Melanie Klein, "essa mulher – que não era médica nem possuía outra graduação universitária, esposa infeliz e depois divorciada, mãe deprimida, a vida pontilhada de lutos e perdas, analisada por Ferenczi e por Abraham (...) Tornou-se uma referência incontornável para todos que se interessam pela vida psíquica e pelo sofrimento humano"(Bueno).


É delicadíssimo falar sobre tudo isso. Nesta associação livre em que trago artigos e livros para apoiar a minha fala, ao meu ver fica evidente a nossa força: tomamos iniciativas, às vezes incompreensíveis, às vezes aos prantos (não necessariamente de tristeza) mas parimos e alimentamos. Assim, me parece que podemos quase tudo. 😙


Uma Klein por ela mesma pra finalizar! ⬇


Beijo e até!

lzpsicologia.com.br


Assim, enquanto no homem é o ego e, com ele, relações com a realidade que na maior parte do tempo tomam a dianteira, de modo que sua natureza como um todo é mais objetiva e prosaica, na mulher é o inconsciente que é a força dominante.
No caso dela, não menos que no dele, a qualidade de suas conquistas dependerá da qualidade do ego, mas adquirirão o caráter especificamente feminino de intuitividade e subjetividade a partir do fato de que o ego da mulher está submetido a um espírito interno amado. (Klein, 1932, A psicanálise de crianças)


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