• Hericka Zogbi Jorge

O novo (ano), crescer, perder e amadurecer, resiliência e outros temas

Atualizado: Mar 24

Neste final de ano eu recebi de um colega, o Wilson Sampaio (linkedin.com/in/wilsonsampaiocop21 ) um texto que me tocou profundamente.

Sempre fui afeita às metáforas da vida com o desenvolvimento do bebê e das crianças.


Mas nesta, eu não tinha pensado: ele falou sobre o Natal e a ideia de tudo que uma criança traz consigo, especialmente a possibilidade de mudar a vida de cada um. Da importância de cuidarmos da nossa criança, pois essa que habita em cada um de nós pode causar pequenas - ou grandes - revoluções.


A partir deste disparador do Wilson quis retomar um texto que eu escrevi há mais ou menos um ano e meio atrás e foi tema de uma palestra na antiga instituição de ensino em que eu trabalhava. O texto fala sobre crescer, transformar e nas perdas e ganhos deste processo (Perdas e Ganhos, aliás, o título de um livro da Lia Luft disponível no Google Books https://books.google.com.br/books?id=lY5WH-nPLc8C&lpg=PP1&hl=pt-BR&pg=PP1#v=onepage&q&f=false ).


Também faz referência a um poema super conhecido mas cuja autoria é dessas complicadas de entender. Chama-se "Um Dia Você Aprende", geralmente atribuído a Shakespeare, tendo sido supostamente escrito pela americana Virginia Shoffstall, eventualmente atribuído a Jorge Luis Borges e também uma outra americana reinvindica sua autoria, Judith B. Evans. Virgínia tem sido considerada a autora definitiva.

Assim, o poema é mais corretamente dado como de autoria desconhecida, a partir da falta de registro oficial.


Como acadêmica preciso deixar clara a minha busca sobre essas e todas as fontes de que faço referência. É uma questão de norma mas antes, de ética. E preciso dizer que mesmo que não saibamos ao certo quem, ou por qual mão foi escrita uma história, ainda assim, ela não perde em nada seu valor.

Quem me conhece sabe que não sou uma psicóloga afeita a psicologia de senso comum e falas de auto ajuda, que nada tem a ver com a psicologia científica

De outra feita, a poesia nos aproxima de nossa humanidade, muitas vezes transformando a representação do afeto em palavra.

O desenvolvimento humano, físico e psicológico, nos obriga a aceitar a mudança como uma das únicas certezas que temos (além da morte e da imprevisibilidade da vida).


Ao entendermos as mudanças pelas quais passamos desde sempre, deveria ficar menos difícil enfrentar o incerto e o novo de cada dia


O corpo da mulher adulta precisa se transformar de maneira brutal para receber a vida dentro de si.


Nove meses depois, precisa se transformar novamente e não será um retorno ao estado anterior, mas a um novo estado.


O bebê, que estava em uma condição de conforto e isenção de estímulos, passa a se defrontar com a respiração, as luzes, a fome, o barulho.


Há quem diga (Freud é um destes) que o nascimento é o acontecimento mais traumático das nossas existências.


Porém, não é o que dizem algumas mães, para quem essa passagem de uma barriga para um bebê é um momento venturoso.


Traumático ou não, todos estamos aqui hoje, superando aquele momento original.

Saímos da proteção do útero materno, largamos a barra da saia, saímos da casa dos pais, cortamos o cordão, cedo ou tarde.


Esses são grandes marcos do crescimento e todos envolvem perdas, ganhos e transformações.



É do humano relacionar a mudança ao medo e a perda, o que não está de todo errado.

Para a autora que apresento a seguir, que se definiu como "enrugada, vulnerável e mortal", a norte americana Judith Viorst (jornalista e pesquisadora de psicanalise, hoje com 87 anos,

autora do livro “Perdas Necessárias” https://books.google.com.br/books?id=YWDBDwAAQBAJ&lpg=PP1&hl=pt-BR&pg=PP1#v=onepage&q&f=false datado de 1987 e com mais de 50 edições no brasil) nos fala sobre algumas situações de vida que podem ser entendidas pelo ponto de vista da perda e que se configuram nas mais importantes transformações que cada um de nós passa, inevitavelmente:


"As nossas perdas incluem a perda consciente ou inconsciente de sonhos românticos,

expectativas impossíveis, ilusões de liberdade, poder e segurança – e a perda do nosso próprio eu jovem, o eu que se julgava para sempre imune a rugas, regras, invulnerável e imortal.


As perdas com que nos vemos face a face e com os fatos dos quais não podemos fugir:

Que nossa mãe vai nos deixar e que nós vamos deixá-la;

Que o amor da nossa mãe jamais será só nosso; (porque psicólogo não pode deixar de falar da mãe em qualquer circunstância!)

Que as dores do que nos machuca nem sempre desaparecem com um beijo;


Que estamos no mundo essencialmente por nossa conta;

Que teremos de aceitar – nos outros e em nós mesmos – um misto de amor e de ódio, de bem e de mal;

Que, por mais sabia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota vai poder se casar com o pai quando crescer;

Que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa; – mais coisas de psicólogo que eu posso explicar num momento mais oportuno 😉

Que há falhas em qualquer relacionamento humano;

Que nosso status neste planeta é implacavelmente efêmero;

E que somos incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos qualquer forma de proteção – proteção contra o perigo e contra a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias.


Essas perdas são parte da vida – universais, inevitáveis, inexoráveis.

E essas perdas são necessárias porque para crescer temos de perder, abandonar e desistir."


Para crescer temos de perder. Só podemos ganhar quando aceitamos a condição de perda como parte da ordem das únicas certezas da vida.Ganhar uma nova visão de mundo, uma visão de mundo mais resiliente e positiva, que não nega as dores mas as reconhecem como molas para um novo impulso.

Sei e sabemos que não é simples.


Ao mesmo tempo em que lidamos com tantas transformações desde sempre, em alguns momentos podemos ter a impressão de que não há mais a elasticidade e a flexibilidade necessárias para continuar.

Aqui, evoco o conceito de resiliência, muito usado pelo senso comum mas de fato pouco compreendido pela maioria. O conceito de resiliência, do ponto de vista teórico repousa basicamente sobre três pilares:


  1. a capacidade de o indivíduo atuar como agente diante das condições adversas, persistindo em seus esforços e encontrar uma nova normalidade;

  2. a capacidade de regular seu comportamento, apoiando-se em seus resultados, quando comparados a um padrão de referência; e, principalmente,

  3. a capacidade de acreditar em sua competência para fazê-lo.

Os recursos do indivíduo não são fixos e mudam ao longo do tempo. Autores nacionais e internacionais de renome avançaram muito nessa concepção e concebem que a capacidade de resiliência vai muito além de se recuperar de um dano ou resistir ao estresse pois implica uma superação do que se era, bem como crescimento pessoal (Fontes e Azzi, 2012 disponível em http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v29n1/a12v29n1.pdf ; Brandão et al., 2011 disponível em http://www.scielo.br/pdf/paideia/v21n49/14.pdf e muitos outros).


Me encaminhando para o final deste ensaio feito em absoluta associação livre, reproduzo aqui o poema de Virginia Shoffstall ou de autoria desconhecida. Não me canso de lê-lo, mostrar às pessoas de quem gosto, compartilhá-lho sempre que possível.


É lindo, tocante, sensível. E deixa o que entendo ser uma mensagem do novo, que nada mais é do que uma outra visão das mesmas coisas.


Um Dia Você Aprende


"Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.

Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.

E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la…

E que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam…

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.Aprende que não importa onde já chegou, mas para onde está indo… mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.

Aprende que, ou você controla seus atos, ou eles o controlarão… e que ser flexível não significa ser fraco, ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem, pelo menos, dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens…Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores."


Espero que aproveitem essa leitura que para mim é inspiradora.

Até breve!

Hericka



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